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Medo da tecnologia, quem tem medo da tecnologia

O ser humano tem um comportamento paradoxal. Ao mesmo tempo em que almeja o progresso e a eficiência, tem receio de mudanças que representem alguma perda de controle ou a necessidade de aprender algo novo. Algumas situações recentes ilustram bem essa característica.

O poder judiciário do estado de São Paulo descobriu que ao invés de deslocar presos de um local para outro, às vezes até de avião como ocorreu com o ilustre cidadão Fernandinho Beira Mar, conseguia enorme ganho de eficiência fazendo as audiências por meio de vídeo conferência. As vantagens são óbvias: maior agilidade nos processos, economia de preciosos recursos públicos, diminuição de risco de fuga, além da utilização de policiais na prevenção e proteção de cidadãos e não na escolta de bandidos. Recentemente, com o caloroso aplauso da Ordem dos Advogados do Brasil, o STF considerou essa prática ilegal, o que obrigou o judiciário paulista a cancelar as audiências eletrônicas e voltar ao tradicional método da escolta. Sem problemas! Afinal, o Brasil é um país rico e pode desperdiçar centenas de milhares de reais para ouvir detentos. Além disso, o judiciário brasileiro é extremamente ágil e mesmo usando métodos arcaicos consegue julgar e decidir com uma espantosa velocidade, não é mesmo?

Mas a rejeição ao novo não ocorre só por aqui. Um outro exemplo inacreditável vem dos Estados Unidos. Naquele país, o processo de votação e apuração de votos em eleições é realizado por meio de métodos do inicio do século passado. Na eleição anterior, na qual venceu George Bush, a apuração se arrastou por semanas no estado da Flórida e uma das razões é que são utilizadas por lá máquinas de votação na qual o eleitor usa a força do braço e puxa uma alavanca para perfurar a cédula e indicar o destinatário do voto. Ocorre que muitos eleitores, possivelmente idosos, não puxavam a alavanca com a força necessária, de forma que as máquinas só amassavam o papel sem perfurá-lo. Como a votação naquele estado poderia decidir o pleito, criou-se uma grande celeuma a respeito do que fazer com os “votos amassados”, mas não perfurados. Nessa última eleição, para efeito de teste, algumas seções foram contempladas com urnas eletrônicas do tipo usado no Brasil. No entanto, por algum motivo misterioso, as pessoas preferiram ficar na fila normal por horas a usar a tal maquineta eletrônica. O incrível é que tal coisa aconteça na terra da IBM, da Microsoft e da Google.

Também o e-commerce viveu algo parecido no Brasil. Quando comecei a pesquisar esse assunto, nos idos de 2001, a maior parte dos comerciantes apostava nas vendas on-line tanto quanto alguém apostaria hoje que o Brasil vai montar um foguete e mandar um astronauta dar um passeio em Marte.  Naturalmente, o fabuloso desempenho do e-commerce, que cresceu nesse período a taxa média de 40% ao ano, acabou demolindo essas resistências, mas até recentemente via-se dirigentes de grandes redes varejistas, como Casas Bahia, declarando que não iriam vender pela Internet pelos mais estranhos motivos. Atualmente, essa mesma empresa investe pesadamente no desenvolvimento de uma loja virtual para tentar recuperar o tempo perdido, o que faz todo sentido, afinal, não deve ser nada fácil ver os clientes usando o computador, comprado em 36 prestações, para fazer compras on-line nas lojas virtuais dos concorrentes.  Como diz aquele famoso ditado: o tempo é o senhor da razão.  Tomara que seja sempre assim.

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Dailton Felipini é mestre e graduado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. Professor de comércio eletrônico na Universidade Mackenzie. Pesquisador, especialista em e-commerce, consultor e editor do site http://www.e-commerce.org.br/

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Publicado em 5 de março de 2010 por admin

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